um novo estado…

…de espírito todos os dias (ou só de vez em quando para não cansar)

Being Wes Anderson

Wes Anderson, muito mais que interjeições verbais, provoca-me interjeições faciais. Todo ele é um wow, um wow que me faz arregalar os olhos e abrir um sorriso. Nada disto seria de espantar, não fosse o simples facto de eu não ser nada dada nem a metáforas, nem a subtilezas. Daí provir o meu fascínio por este contador de estórias.

Anderson não se relaciona directamente com o mundo, é o seu mundo que se apresenta grandioso aos pés da realidade. Acredito que ele faça mais os filmes para ele do que para os outros. E nos dias que correm isto é já de si uma atitude excêntrica. O imprevisível e o melancólico não são bons chamarizes para uma ida ao cinema. Ou sim, se forem captados pela câmara de Wes. Ou se adora ou se detesta, não há meios termos, just the way I like.

Em The Darjeeling Limited (Spolier Alert!) está lá tudo, o imprevisível, o melancólico, as pausas, os longos planos fixos, que parecem não trazer informação relevante, os diálogos “diferentes” (principalmente em Hotel Chevalier), a música e o minucioso cuidado visual. Ah, particularmente neste filme temos as cores, meu deus, as cores. (Atenção aos daltónicos e aos sensíveis a cores fortes. Aos primeiros porque não vale a pena verem este filme, aos segundos porque são capazes de ferir a vista.) Concluindo, tudo aquilo que é necessário para que em apenas 5 segundos percebámos que estamos no reino de Anderson.

Sinopsemos então. “Três irmãos norte-americanos, que não se falavam há um ano, lançam-se numa viagem de comboio através da Índia no intuito de se encontrarem a eles próprios e reatarem os laços familiares – tornarem-se novamente irmãos como eram antes. Porém, a sua “busca espiritual” desvia-se rapidamente do caminho proposto (por causa de acontecimentos envolvendo analgésicos ilegais, xarope indiano para a tosse e spray pimenta) e eles acabam por se ver abandonados no meio do deserto com onze malas de viagem, uma impressora e uma máquina de plastificar. Subitamente inicia-se uma nova viagem não planeada.” – in UCI Cinemas. Mas como as sinopses não me chegam e eu gosto de falar sobre filmes, lá vou eu estragar-vos mais um (mas acreditem que não vos vou contar tudo, seria impossível, Anderson é visual. Mesmo assim, já sabem, se são susceptíveis… não leiam).

The Darjeeling Limited é precedido por uma curta-metragem chamada Hotel Chevalier, escrita também por Anderson, e que é uma espécie de prólogo ao filme. Primeiro parêntesis: Natalie Portman e Jason Schwartzman. Portman como veio ao mundo e Schwartzman sem despir sequer o casaco.
Natalie – Whatever happens in the end, I don’t want to lose you as a friend.
Schwartzman – I promise I will never be your friend, no matter what ever.
Natalie – If we fuck, I’m going to feel like shit tomorrow.
Schwartzman – That’s ok with me.
Natalie – I love you. I never hurted you on purpose.
Schwartzman – I don’t care.
E quase tudo o resto é silêncio.

Os irmãos Whitman são disfuncionais, aliás a família Whitman é disfuncional. Francis (Owen Wilson) sofreu um “acidente” com uma moto e está todo partido (weird, se pensarmos que o próprio Owen Wilson se tentou matar no Verão passado), é rico, possessivo e controlador, muito controlador (tal e qual a mãe). Peter (Adrien Brody) parece ter parado nos anos 80, pois não larga os óculos de 15cm de diâmetro que eram do seu falecido pai, culpa-se pela morte deste e tem medo de ser pai. Jack (Jason Schwartzman) é um escritor coração de pedra, inseguro, que só se relaciona com mulheres superficialmente e que baseia todos os seus romances em pessoas reais. O pai deles morreu há um ano atrás. A mãe fugiu após a morte do pai e tornou-se freira. Acrescentemos a tudo isto o facto de a acção se desenrolar na Índia (a esta hora aposto que já estão com os cabelos em pé).

Idiossincrasias à parte, todos se amam uns aos outros e só por isso estão juntos na viagem terapêutica, ou pelo menos numa viagem que se pretendia terapêutica. Para que isso se concretizasse, os três irmãos só precisariam de não levar com eles as 10 malas que os acompanhavam, a derradeira personagem do filme, o passado. As malas (que me fazem lembrar imenso o esquilo do Ice Age, porque parecem não fazer parte da história e estão sempre a aparecer nos momentos mais inesperados) são nada mais nada menos que a metáfora perfeita do peso das vidas deles. E acreditem, eram 10 malas bem cheias.

À medida que o tempo vai passando e eles vão descobrindo que não confiam uns nos outros, que na realidade já não se conhecem e que o amor que nutrem não chega para que convivam saudavelmente, descobrem que nem tudo nas suas vidas é negro. E é através da vida de outros que percebem que afinal chegou o momento de darem mais uma hipótese a eles mesmos (não vou contar que vidas e que acontecimentos os fizeram abrir os olhos). A mãe é aqui decisiva também: “ Let’s make an agreement: a) we’ll get an early start tomorrow morning and try to enjoy each others company; b) we’ll stop feeling sorry for ourselves. It’s not very attractive; c) we’ll make our plans for the future.” Finalmente, o peso ficou para trás – “Dad’s bags aren’t gonna make it” (brutal).
E a viagem continua. The End.

Eu acho que foram as cores que os salvaram… O que eu não dava para passar uns dias com Wes Andeson e perceber se os filmes dele são como os livros do Jack Whitman. ;)

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This entry was posted on 8 de Abril de 2012 by in Ver.

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