um novo estado…

…de espírito todos os dias (ou só de vez em quando para não cansar)

Wroclaw III – A cidade do futuro e dos… gnomos!

A rivalidade com Cracóvia é antiga. O título de maior praça medieval da Europa ficará sempre para a segunda cidade da Polónia, o centro histórico de Cracóvia é Património Mundial há 34 anos e a Universidade é uma das mais antigas da Europa. No entanto, hoje Wroclaw tem mais do que nunca motivos para se orgulhar de si própria.

A cidade que foi considerada fortaleza para Hitler ficou praticamente destruída no final da segunda grande guerra. Hoje só a história o diz, porque Wroclaw foi totalmente recuperada e a vida pulsa a cada esquina.

O coração medieval está de cara lavada. Grande parte das ruas em volta da Town Hall e do Rynek são pedonais, ou então apenas para veículos de residentes, o que faz da área um óptimo local para andar. Saindo destes quarteirões, os transportes estão em qualquer esquina.

Os velhinhos trams cruzam com os modernos e são o transporte público mais usado e, além das viagens serem baratas, as linhas levam-nos a todo o lado. 

Fora isso os dados que mais orgulham os “wroclanenses” dizem respeito à economia da cidade, ao crescente panorama cultural e ao número de investimentos de que Wroclaw é alvo. A programação da Ópera é aplaudida pelas elites, os hóteis de 4 e 5 estrelas cresceram nos últimos anos, talvez pelo também crescente número de congressos que a cidade acolhe e as filas de desemprego diminuíram.


Este ano Wr
oclaw é uma das cidades que vai receber o campeonato europeu de futebol. A notícia foi recebida com o mesmo entusiasmo que os portugueses sentiram aquando da atribuição do EURO 2004 a Portugal. Os efeitos foram também os mesmos. Wroclaw tem agora um novo estádio completamente moderno e que assegurará todas as condições para a disputa de 3 jogos. A estação de caminhos-de-ferro está virada de pernas para o ar com tantas obras e o novo terminal do aeroporto já foi inaugurado.

Em 2016 Wroclaw será Capital Europeia da Cultura (Cracóvia foi a primeira cidade a sê-lo, em 2000) e conta com um orçamento de 75 milhões de euros para fazer história no país. Com a cultura virá mais emprego, mais turismo e muita criatividade. E criatividade não falta por estes lados.

Em 2017 a cidade recebe os World Games, um evento desportivo que promove os desportos não-olímpicos, como o sumo, o squash ou o bilhar, e que atrai cerca de 300 mil pessoas todos os 4 anos.

O número de estudantes do Programa Eramus aumenta todos os anos e todos os cidadãos usam todos estes números como arma de arremesso a Cracóvia. No entanto, num ponto estiveram sempre à frente. Wroclaw é uma cidade mais quente do que Cracóvia, 5 graus a mais fazem a diferença.

Ao segundo dia, neve, mas menos frio. Os termómetros concederam-me uns simpáticos 9 graus de máxima (e se aqui refiro mais uma vez as condições meteorológicas é simplesmente porque o frio foi também uma atracção nesta viagem). Apesar do tempo estar muito encoberto havia um lado da cidade que teria de visitar

A uns 15 minutos do centro da cidade, estava um dos mais prazerosos locais para os habitantes de Wroclaw. Um conjunto de atracções que enchem aos fins-de-semana, aos solarengos pelo menos.

A comemorar 99 anos está o Centennial Hall, um dos monumentos mais importantes do início do século XX e que é Património Mundial, desde 2006. A sala de espectáculos e exposições tem 69 metros de diâmetro e 42 de altura e foi construída com recurso a ferro e betão, considerado à época um grande atrevimento. Hitler serviu-se do espaço para doutrinar as massas polacas e o Papa João Paulo II doutrinou os fiéis.

A visita ao Centennial Hall não acaba sem antes visitar a Pérgola e a Fonte de Wroclaw. Do outro lado da estrada está o mais antigo zoo da Polónia e o Parque Szczytnicki. Mas como o frio e a neve não me deixam passear como gostaria, lembro que o melhor é visitarem a cidade com temperaturas mais agradáveis.

O tram estava mesmo ali em frente, mas o frio não levou a melhor desta vez. Os cerca de 3 km até ao centro foram feitos a pé (com paragem por um shopping a meio do “passeio” para que as mãos e o corpo aquecessem). Fora do círculo turístico da cidade também se nota a recuperação de alguns edifícios que habitam pegados a outros que o tempo teima em mexer. Nas avenidas do século XIX há cores frescas e portadas de janelas cuidadosamente esculpidas avizinhadas com betão a cair e portas que se tem medo de atravessar. Pelo meio hospitais e faculdades que gritam por obras.

A tarde é ocupada com uma visita ao Raclawice Panorama, uma tela a óleo muito invulgar e que é um dos ex-líbris de Wroclaw. Com 140 metros circulares, a pintura data dos finais do século XIX e saiu das mãos de dois homens que não deixaram esquecer a famosa batalha de Raclawice, em que os polacos ganharam aos russos. A tela foi pintada em Lviv, na Ucrânia, e veio para Wroclaw para um edifício construído propositadamente para a albergar. Foram meses de preparação e toda a cidade quis ver com os próprios olhos tamanha atracção. A complementar o óleo estão carroças verdadeiras, palha, espadas e até mesmo um canhão. Tudo em nome do mais puro realismo.

Ao lado do meu hostel a sinagoga branca de Wroclaw dizia-me bom dia todos os dias. É preciso saber onde ela se situa para encontrá-la. Não está à vista de qualquer um, mas escondida num pátio interior da rua Wlodkowica. Era aqui que os judeus eram reunidos para depois serem deportados para campos de concentração e extermínio. Em 1996 o governo lançou as obras que hoje recuperaram o edifício, que além de local de culto é também museu. Nota: a loja da sinagoga tem miniaturas de rabinos em fimo maravilhosas e super baratas.

A criatividade é certamente um dos pontos a favor de Wroclaw. Testemunho disso mesmo são as pequenas criaturas com que nos deparamos pelas ruas fora. E se primeiro as tomamos como uma engraçada surpresa, à medida que percorremos a cidade tornam-se numa intrigante surpresa. Se Paris tem uma Torre Eiffel, se Londres um Big Ben, se Barcelona uma Sagrada Família, Wroclaw tem gnomos. Isso mesmo, gnomos. Não se assustem, mas há cerca de 30 anos a cidade foi assaltada por gnomos e eles por cá ficaram. Verdade, são pequenas criaturas de bronze que hoje são o símbolo da cidade. O coração medieval está cheio deles e até há mapas para os encontrar. Mas expliquemos os primórdios desta ideia.

Nos anos 80 quando o comunismo apertava os cintos, e suprimia as liberdades, nasceu um movimento artístico pacífico chamado Laranja Alternativa (não confundir com a Mecânica, muito mais violenta). Em cada manifestação do grupo predominava uma matriz absurda. Os actos apalhaçados não agradavam ao Estado que via neles uma ameaça contra a ordem pública. Os grafittis eram rapidamente pintados com os símbolos do comunismo, os intervenientes de espectáculos de rua presos. A partir daí os membros da Laranja Alternativa vestiam-se de gnomo e cobriam os edifícios e símbolos do regime com… desenhos de gnomos. O que inicialmente nasceu como um movimento cultural acabou numa das faces mais visíveis contra o comunismo.

No novo milénio, em homenagem artística à Laranja Alternativa alguns artistas locais desenharam algumas estatuetas e colocaram-nas nos locais mais movimentados da cidade. Os habitantes gostaram e começaram a encomendar mais e mais. Hoje há gnomos para todos os gostos à porta de vários estabelecimentos comerciais e casas particulares, o Gourmet (Pizza Hut), o Cinematógrafo (Cinema), os Enamorados (Cartório), o Apreciador de Dumplings (Restaurante), etc, etc, etc.

Por isso, aqui vale a pena empinar o nariz na direcção do céu para olhar os telhados artísticos das igrejas e as torres altas ou os detalhes das janelas dos edifícios, mas também baixar os olhos ao solo, mais que não seja para não tropeçar nas pequenas criaturas, o que não é de todo tão inédito assim.

O fim da viagem chegou e a despedida fez-se com um mais um delicioso cappucino do Mleczarnia Café  Para trás ficaram dois bons dias de visita ao último bastião contra o avanço soviético na Segunda Guerra Mundial. Aconselho, mas de preferência com temperaturas mais agradáveis.

P.S. – A escala em Londres deu para ver que a Europa do Norte estava mesmo toda coberta de neve. E posso-vos dizer, nunca ansiei tanto pelos 12/14 graus do nosso Inverno português. Santo Paraíso o nosso!

 

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3 comments on “Wroclaw III – A cidade do futuro e dos… gnomos!

  1. Eugénio Pinheiro
    6 de Maio de 2012

    Gostei, no entanto penso que precisas de rever o texto. Prazerosos hum!!!
    A Sinagoga ainda está. Jinhos

    • AndreiaP
      8 de Maio de 2012

      Então que se passa com o prazeroso? Não achas que possa ser ou não achas que é a palavra certa? A sinagoga ainda está sim senhor meu pai, mas eu estava no hostel e quando lá estava é que estava a sinagoga ao lado 😉 Mas para não dizerem que sou mesmo teimosa e tal, por ti até mudei a frase! Beijocas.

      P.S – Mas só gostaste do texto do Wroclaw III? E os anteriores?

      • eugénio pinheiro
        9 de Maio de 2012

        Desculpa, mas teimoso sou eu. Prazeroso não conhecia, mas talvez por isso não me soe bem. Quanto a sinagoga está mais bonito agora o texto. Depois falo-te dos outros. Vou para M. Real jinhos.

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This entry was posted on 29 de Abril de 2012 by in Lugares.

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