um novo estado…

…de espírito todos os dias (ou só de vez em quando para não cansar)

Os homens de Alexander Payne

Vi o The Descendants noutro dia. Vi e só a partir de meio do filme é que me apercebi que estava a ver um filme de Alexander Payne.

Os primeiros 50 minutos são para ajustar a vista e confiar que o desenrolar do filme tem argumentos para ter estado nomeado a vários prémios. Comecemos pelas camisas havaianas. Não assentam bem a George Clooney, nem aos outros personagens. Todo o ar deles parece o da terceira idade de L.A que escolhe a Flórida para aproveitar a que dizem ser a última das idades. E nem o facto de percebermos que o actor tem as pernas muito bem tonificadas nos impede de pensar que a imagem dele e do Hawai não conjugam. O Hawai só tem piada com os nativos grandes, de pele escura e ar asiático-americano. Os americanos do continente não transmitem o chill out da face dos nativos. Aliás estou mesmo convencida que o argumento tinha mais piada noutro estado dos Estados Unidos (a Flórida, por exemplo).

No entanto, Alexander Payne lá aprofunda os seus ingredientes característicos na segunda parte do filme. Os dilemas, as buscas interiores, as mulheres que marcam os homens como tatuagens a ferro a ferver, enfim, o significado da vida. No final da refeição o prato não estava mau, mas não era digno de estrelas Michelin.

Em The Descendants a ligação entre um pai e as suas filhas é posta à prova quando a mãe lhes falta e isso é o cabo dos trabalhos. Os segredos saltam da escuridão e transformam a vida de Matt King (George Clooney) num céu muito nublado. A solução passa por perdoar o passado e olhar para lá das nuvens.

O filme  não ganha a minha simpatia não pelo desempenho de George Clooney, que foi bom, mas porque inevitavelmente há outros homens de Alexander Payne mais complexos e muito mais interessantes.

Lembremos Warren Schmidt. Um homem que só quando chega à terceira idade pára e faz um balanço de vida. O pretexto chega com o casamento da filha e a família do genro, que nada tem a ver com a sua. É uma comédia com drama, disfarçado pela comédia (como em centenas de filmes que já vimos). Ao contabilizar os juros de vida que tem, a personagem de Jack Nicholson soma os seus tabus aos “destabus” dos outros. Ao tentar corrigir alguns erros percebe que os seus tabus engoliram-lhe a vida e que ela podia ter tido muito mais significado na vida dos outros.

As mulheres acompanham mais uma vez o personagem principal e o fim é uma moral sobre o facto de o ser humano não ser uma ilha deserta.

O carismático Jack Nicholson no seu trono de um dos melhores do mundo na arte de representar faz toda a diferença.

Sideways é provavelmente o filme mais elogiado de Alexander Payne e tem todos os motivos para o ser. Mais uma vez tem como actor principal um soberbo camaleão da sétima arte. Tal como Stanley Tucci (de quem era capaz de escrever um post só dedicado a ele, tal é a minha admiração pelo seu trabalho), tivesse Paul Giamatti a cara de um Brad Pitt e era convidado para tudo que é grande filme. Continua a carreira em papéis secundários e ganha sempre reconhecimento com os filmes non-mainstream.

Miles (Giamatti) segue em viagem pelas paisagens vitivinícolas do E.U.A com Jack (Thomas Haden Church) naquela que é a última viagem como solteiro de Jack. Ambos levam os “quarentas” e a famosa crise com eles (a de idade, não a económica) a passear pelas terras da América profunda. E aí está outra característica dos filmes de Payne, Nova Iorque, Los Angeles e todas as grandes faces urbanas da terra do Tio Sam são apenas postais em áreas de serviço a caírem aos pedaços. E que bem que sabe lembrar que os E.U.A são um enorme puzzle de gentes e sotaques para lá de arranha-céus que criam vidas em stresse.

O filme é rodado em volta da complexidade dos vinhos (e da vida) e da sede de mudança. Todos os dias novos vinhos, todos os dias a mesma vontade de encontrar  o sentido certo para uma instável maturidade solitária. E as mulheres… as mulheres mais uma vez na alegoria do desespero por encontrar o Pinot perfeito.

Payne é um americano Pedro Almodóvar, mas em versão “Homens à beira de um ataque de Nervos” (e com muito menos gritaria, característica do realizador espanhol). 

Saltemos ainda para Paris Je t’aime e o 14º arrondissement. Desta vez é uma americana que leva a sua vida triste para a capital das luzes e encontra o existencialismo. Sartre, Beauvoir, a mortalidade, a transformação, o significado da vida, os milhares de quilómetros que são precisos fazer dentro dela para em meia dúzia de passos em Paris se encontrar.

Todas estas estórias ganham a minha simpatia, umas mais do que outras, pelo facto de serem capítulos de vida comuns. Não preciso de Origens nem de Matrixes para achar que a originalidade vem de um tema inusitado. Olhar para o dia-a-dia e transformá-lo num bom filme é muito mais difícil do que pegar numa ideia completamente inovadora e fazer dela um blockbuster. Isto sem retirar valor a todas essas ideias.

No entanto, The Descendants não foi o que de melhor já vi pela câmara de Payne.

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This entry was posted on 1 de Junho de 2012 by in LerVerOuvir, Ver.

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