um novo estado…

…de espírito todos os dias (ou só de vez em quando para não cansar)

De Rerum Ecclesiam

O Papa não tem Facebook. O Vaticano como sede da Igreja Católica não tem Facebook (pelo menos segundo as minhas pesquisas, que não foram assim tão exaustivas).

O estado do Vaticano está, como se sabe, cercado por um muro, mas não fechado, dentro da cidade de Roma há quase 100 anos. O Papa quer que os jovens entrem para a Igreja Católica numa tentativa de travar aquilo a que ele chama “uma crise de vocações nos países do Ocidente”. O que eu pergunto é: como é que a Igreja Católica pretende conquistar corações e almas jovens, quando na maior parte do tempo os ignora ou chama de pecadores? É que ainda para mais o muro que separa a cidade eterna do Vaticano não é muito alto. É abismal! É um muro que separa esta religião de um mundo real que não atrai certamente a maioria dos jovens que tiveram educação católica e que hoje têm Facebook.

Segundo Bento XVI “O Senhor está sempre a chamar, mas às vezes não ouvimos. Somos distraídos por muitas coisas, por vozes mais superficiais, e temos medo de ouvir a voz de Deus porque pensamos que poderia retirar-nos a nossa liberdade”. Não é Deus que pelo vistos retira, ou poderá retirar, a liberdade dos homens (e um h bem pequeno, porque como bem sabemos as mulheres continuam a ser um pecado silenciado dentro da Igreja), mas sim a própria Igreja que dentro da sua hipocrisia se esquece das suas próprias palavras.

Relembremos que há 4 anos o Bispo Gianfranco Girotti alertou os católicos para os novos pecados mortais, sendo um deles o tempo que se dispensavam às novas tecnologia, aos jornais, à televisão e às redes sociais.  Com este novo pecado chegaram outros até muito legítimos: o uso de drogas, a despreocupação com o nosso larguíssimo buraco do ozono e com as desigualdades sociais, nomeadamente na forma de ostentação daqueles que são obscenamente ricos, etc. Por terras portuguesas fez-se ouvir a voz do Padre Vaz Pinto num apoio certamente argumentado, mas que na prática não se traduz em resultados. “Quem passa a vida na informação acaba por não poder intervir no resto da vida, deixando coisas mais importantes: a mulher, os filhos, o desporto, a cultura e por ai fora”. D. Januário já nessa altura se fazia ouvir distante da generalidade da Igreja ““Se assim é, então eu sou um grande pecador. Leio muitos jornais, navego na ‘net’ o tempo que for preciso e vejo televisão, como toda a gente. No limite, há ‘defeitos’ em tudo. O futebol, por exemplo. Também pode ser um pecado. O dinheiro que se gasta num bilhete podia ser dado aos pobres. Até em gestos simples encontramos, se quisermos, situações pecadoras. Um indivíduo que passeia à beira Tejo, se calhar, devia estar com a tia no hospital ou a fazer companhia aos netos”.

O Bispo Gianfranco Girotti como qualquer agente comercial vendeu o seu produto, mas obviamente que não defendo que esta chamada de atenção se registe em campos como o da bioética e da liberdade pessoal (pelo menos naquela que não esbarra na liberdade pessoal do Outro). Aqui denuncio o meu carácter ateu e afasto-me galacticamente das crenças católicas. A negligência que foi apontada, pelo Bispo, relativamente à ecologia e à justiça social é exactamente a mesma que a Igreja comete em relação às questões da investigação de células estaminais, da procriação medicamente assistida, da clonagem terapêutica, do uso do preservativo, entre muitas outras.

Os espelhos por terras italianas partiram-se há já muitos séculos atrás e o mesmo aconteceu com os binóculos que avistavam África. Se a nova forma de pecado e a globalização fazem o Vaticano reflectir nas novas repercussões sociais, porque não o fará agir e dar uma oportunidade a si próprio? E consequentemente aos seus fiéis jovens?

O que a Igreja precisa, se quer reconquistar os crentes que perde todos os dias, os crentes da Igreja, não do Senhor maior, é de pessoas como o Cardeal Carlo Martini, que morreu na passada semana. Parece que era admirado por todos, apesar de alguma distância tácita face a alguns dogmas da Igreja.

Martini (alguém com este nome só poderia estar aberto a novas ideias) sempre acreditou na palavra de Jesus, mas via o mundo mudar e com ele a necessidade de também os clérigos o fazerem. Na sua opinião o uso do preservativo era um mal menor, os divorciados, homossexuais e separados não deviam ser olhados com olhar recriminador e a Igreja deveria reconsiderar o celibato dos padres e descer à terra do seu pedestal pomposo. (Segundo ouvi dizer parece que Jesus era um dos “nossos”, não andava ao colo de ninguém e não usava Gucci.)

O grande dogma da Igreja é pensar que é o mundo que tem que se adaptar a ela e não o contrário. Enquanto assim for não haverá chamadas de atenção suficientes, nem indulgências infinitas que a possam salvar, porque o risco maior é ela desaparecer e não os seus discípulos fugirem dela.

O Papa afirma que se está a perder o contacto com Deus e a aumentar a noção de pecado. E que os jovens têm uma responsabilidade neste campo. Não poderei concordar mais com ele. Esperemos é que Deus, um dia destes, não olhe para o Vaticano e o veja como uma Sodoma ou uma Gomorra. Se tal acontecer apenas tenho um pedido: por favor Salve a Capela Sistina. 

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This entry was posted on 6 de Setembro de 2012 by in Fait-Divers, Pessoas.

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