um novo estado…

…de espírito todos os dias (ou só de vez em quando para não cansar)

A Voz

Cala-se a voz do velho e do novo.  Eu. Ela. São a mesma. Não se cala. Murmura. Murmura em constante pulsação. E bate, bate, bate, porque ele não pára. Porque ela, do seu alto, não pára. Sussura tão baixo que não se ouve, que não A acorda, enquanto ele bate, bate e bate sem parar.

“Cala-te! Cala-te já!”, pensa Ela quando sente o volume a aumentar ligeiramente. Mas a voz não se cala, esconde-se mais uma vez. Lá atrás, como se ninguém nunca fosse dar conta que ela lá está, escondida, pronta para BERRAR-lhe quando Ela já devia estar, mas não está, à espera. E ai se não BERRA! Se BERRA! Mas é tarde demais. O gosto a vida toma o lugar da voz para a amansar sempre que ao olfacto Lhe chega aquele cheiro que A faz fechar os olhos lentamente e encher os pulmões de… vida. A língua molha suavemente os lábios, os dentes roçam-nos e a voz encolhe como quem diz: já cá não estou a fazer nada. E não está! Ela não deixa! Presumo que nunca vai deixar. Não enquanto o sangue quente nas veias não esfriar.

E esse da mesma forma que escalda, rapidamente esfria. Às vezes porque quer, outras porque a voz ganha força e lá vai importunar o espírito, enquanto muitas vezes se cruza com ele e se confunde com ele. E quando a voz se faz ouvir quase A deixa moribunda, prostrada no ringue que Ela escolheu para viver. “Queres que me cale?” Ela diz que sim. Mas é tarde demais. A cabeça insonorizou-se à prova de tudo, menos da voz. E a voz começa com uma pergunta aqui, uma dúvida ali, num diálogo socrático interior e quando Ela dá conta… a voz já a virou do avesso! Tudo o que Ela pensava e sentia até então fora posto em causa. E o pior é que muitas vezes, se não na maioria delas, a voz sabe do que fala e Ela não tem outra hipótese senão baixar a cabeça e aceitar tudo o que lhe foi dito.

A voz anda quase muda por estes dias e Ela espera que assim continue. Será que está afónica ou apenas não tem nada a dizer? Sim, porque isso também acontece. Nem sempre a voz tem algo a dizer e nessas alturas recosta-se e simplesmente observa lá no seu canto. A sorrir, porque por ela nunca abria a boca. Dispensava completamente o papel para que foi criada.

Ela está desconfiada, mas nada pode fazer! Apenas esperar que a voz adormeça de tanto esperar para desempenhar o seu papel. Entretanto, Ela vive!

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This entry was posted on 23 de Setembro de 2012 by in Contos.

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