um novo estado…

…de espírito todos os dias (ou só de vez em quando para não cansar)

OHHHHH MAAAAANHE!

Há uns anos atrás conheci o Underdog. Underdog era a alcunha, não o nome obviamente. Ele chamava-se Ricardo e digo chamava-se porque já morreu. O Underdog era uma pessoa especial. Tinha um sorriso brutal, não era propriamente bonito, era mais… luminoso, isso, luminoso! O olhar ajudava, ou pelo menos a forma como ele olhava para mim. Não era uma pessoa feliz, não que fosse infeliz, mas tinha demasiados macaquinhos no sótão. Aliás, acho que foi ele próprio que se alcunhou de Underdog, o que dá uma ideia de como ele se perspectivava.

Ainda hoje tenho o seu número gravado no meu telemóvel e sou incapaz de o apagar, incapaz. Lembro-me imensas vezes dele e de todos os meninos que me “adoptaram”, e a uma amiga, naquele campismo da Ericeira, no remoto Verão de 99. Lembro-me com saudades do que passámos lá, do amigo que perdi e do que se perdeu pelo caminho, o Pedro, a quem carinhosamente chamava de Papá. No entanto, do Underdog lembro-me sobretudo quando me apetece gritar. SIM, GRITAR. Daquelas férias ficaram-me três frases na memória: O que é que são 5 metros?Ohhhh, MAAAANHE! e Porque é que não existem elefantes cor-de-rosa? Não me peçam para explicar a primeira e última frases, mas não, não andámos a ingerir produtos alucinógenicos. Quanto à segunda… parece que ainda estou a ver o Underdog a vir da casa de banho, a aproximar-se das tendas e a gritar a todo o parque: OHHHH MAAAANHE! Lindo!

Não conheço expressão mais catártica! Mesmo! Quando alguma tensão me pesa nos ombros, duros como um iceberg, quando os neurónios estão tão cansados de tanto pensar num determinado assunto, quando as forças começam a escorregar como a água a escorrer para o ralo no banho, nada melhor que um bom grito e o OHHHH MAAAANHE é sempre a interjeição que me vem à cabeça. Só ouvindo é que alguma vez perceberão como é libertador. E reparem que podiam ser outras palavras quaisquer, desde que abrissem bem os pulmões e com toda a garra soltassem alguma coisa. Contudo, parece-me que a figura da mãe, seguro poiso de abrigo, o lugar que nunca desaparecerá e para onde poderemos sempre voltar, tem uma relevância extraordinária. Infelizmente, se me der para um momento de catarse às 3 da manhã, em casa, não vou poder fazê-lo clamando em altos berros, mas só de me lembrar do Underdog a executar aquele estranho grito… já fico muito melhor.

freedom

No entanto, esta não deve ser uma expressão associada a momentos menos bons. Nós usávamo-la especialmente quando estávamos animados, aliás nós estávamos sempre animados, como seria de esperar em férias. Esta expressão está sim associada a libertação, a um “DESLARGA-ME”, a um soltar de amarras. Àquele barulho típico das correias a rebentarem – TCHIM! WOW, melhor, bem melhor. E garanto-vos que raramente nos sentíamos presos.

Hoje lembrei-me do Underdog. Não me cheguei a despedir do Ricardo, nunca imaginei que teria de o fazer, mas talvez um dia passe pelo túmulo dele e diga baixinho: Sabes uma coisa? Cada vez menos preciso de chamar a minha mãe. E tu? Já sabes o que são 5 metros? Eu ainda não estou convencida de que não existem elefantes cor-de-rosa! 🙂

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This entry was posted on 23 de Novembro de 2012 by in Fait-Divers, Pessoas.

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