um novo estado…

…de espírito todos os dias (ou só de vez em quando para não cansar)

A música de Picasso

Continuando nas artes, vamos agora a Madrid. Quer dizer, fui a Madrid, porque fui sozinha. A primeira vez fui. Fui e vim, em menos de 34 horas.

Corria o ano de 2006 quando soube que, durante cerca de 3 meses, estaria presente no Prado e no Raínha Sofia a maior exposição de Picasso alguma vez realizada na Europa. Com o plus de nela estar inserido o meu quadro preferido do pintor: Os Três Músicos. (Existem duas versões do quadro, distintas nas cores e nas formas. A minha mais-que-tudo faz parte da colecção permanente do MOMA, a outra encontra-se no Museu de Arte de Filadélfia. Qual das duas estaria em Madrid? Eu ainda não sabia.) Quero tanto ir! Tenho mesmo de ir!

Picasso - Autoportrait à la palette

Barcelona e Salou foram os destinos de fins de Julho ou início de Agosto, por 10 dias. Madrid foi adiada. 3 de Setembro acabava a exposição. 22 de Agosto comecei a entrar em pânico. 24 de Agosto comprei bilhetes de ida-e-volta para a capital espanhola de… camioneta. 25 de Agosto, 20h, parti para Madrid.

Ainda de noite, 6h, a porta abriu numa estação de camionagem já repleta de gente. Com o metro ali perto segui até Atocha. Depois vagueei até às 9h, horário de abertura do Prado.

GaleriaPicasso

Entrei e suponho que senti o mesmo que uma criança quando entra na Eurodisney. À minha frente tinha um corredor que parecia não acabar com dezenas de Picassos. Num ziguezague de passos vi a vida do pintor em realismos religiosos, em curvilíneas musas, em pobrezas azuis, em sintéticos Harlequins, em auto-retratos rosa… num entusiasmo apoteótico com dois clímaxes.

O primeiro quando cheguei às As Meninas. Não por estar a ver o quadro, porque já o tinha visto 3 anos antes em Barcelona, mas porque em frente a este, a cerca de 15 metros, estava a sua inspiração, o original de Velázquez.

velazquezlasmeninas meninasPicasso

E se no original o que interessa é quem observa quem, porque é que Velázquez está auto-retratado, etc, no segundo eu não consigo levantar questões. Só contemplar a genialidade. A genialidade de quem vê o mundo com os olhos que tem e não tem qualquer problema em o expressar. No fundo, acho que é por isso mesmo que gosto tanto do tipo de arte que gosto, porque é libertária. Picasso disse uma vez: “Quando eu tinha 15 anos sabia desenhar como Rafael, mas precisei uma vida inteira para aprender a desenhar como as crianças”. Tal como as crianças, foi tudo o que quis ser.

O segundo momento de êxtase ocorreu quando dei de encontro com Os Três Músicos. E apesar de não ser a minha versão preferida, em nada fiquei desiludida. Olhei, vi, reparei, assimilei e senti que poderia estar a correr perigo. É que fiquei ali especada uns três quartos de hora e quem me observasse poderia muito bem pensar que eu era a versão feminina do Thomas Crown.

Há tantos e tantos anos que já via aquele quadro nos livros que uns meros 5 minutos seria como ir à Eurodisney ver a parada e vir embora. Além disso, eu não sabia se voltaria a ver a pintura. E naquele momento foi impressionante perceber que por melhor que seja a impressão dos livros, as cores de uma tela são tão, tão diferentes. Penso que parte dessa diferença também nos ressalta aos olhos, porque o quadro se torna mais real à nossa frente.

Eu não sei bem porque gosto tanto destes Três Músicos, quando detestos Pierrots e Harlequins. Quer dizer, sei. Faz parte do período do cubismo final de Picasso, o extremo. Aquele que nos faz interrogar ainda mais. E toda a gente sabe que eu gosto que me testem. Ah, e depois ainda tem o cão e a música, claro está. Enfim, é uma festa!

picasso_three_musicians

(Three Musicians – Philadelphia Museum of Art)

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

(Three Musicians – MOMA)

Os pés seguiram até ao fundo do corredor para depois rodarem e pensarem Que Maravilha!

O resto do museu, ou melhor, parte do resto do museu, foi percorrido com sensação de dever cumprido. Obviamente que me impressionaram os Goya e muitos outros, mas esses hoje não têm espaço nesta publicação.

Com tudo isto a hora do almoço chegara e foi gasta em 30 loooongos minutos. Tudo porque a visita tinha de continuar no Raínha Sofia.

Peças artesanais e esquissos do Guernica ocupavam grande parte do piso dedicado a Picasso, mas obviamente que o que toda a gente queria ver era o próprio Guernica.

Por mais que eu já soubesse das medidas da tela, é impossível não ficar abismado com o seu tamanho. E a contribuir também para este estado de espírito está certamente o carácter dramático das expressões de dor causadas pelas bombas de Franco. Quase que apetece tapar os ouvidos para não se ouvir mais aqueles gritos. Apetece pedir ajuda. E apetece pedir à direcção do Museu que arranje uma sala mais ampla para a obra.

guernica-picasso

Tapiés, Mirós, Braques, Dális e tantos outros completaram a visita e uma já muito cansada Andreia saiu para as ruas de Madrid e essas percorreu até às 21h, altura em que a camioneta de regresso ao Porto partia.

O sono muito mal dormido tomou conta de mim toda a viagem. Deixei para trás uma capital espanhola que não me conquistou, e que por mais vezes que lá vá dificilmente me irá conquistar, mas que me deixa rendida aos quarteirões da arte. (Na minha segunda vez em Madrid, o Thyssen Bornemisza provou isso mesmo.)

Picasso, esse, resume-se a: Génio! Por isso venha de lá a próxima maior exposição do Génio, mas desta vez em Nova Iorque por favor! 🙂

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This entry was posted on 10 de Janeiro de 2013 by in LerVerOuvir, Lugares, Pessoas, Ver.

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