um novo estado…

…de espírito todos os dias (ou só de vez em quando para não cansar)

Auschwitz IV – Bloco 11

Quando voltei da Polónia e muitos me perguntaram como foi a minha visita a Auschwitz, a resposta era invariavelmente a mesma: indescritível! E de seguida começava a descrever tudo o que tinha visto, ouvido e lido. E se me voltarem a perguntar hoje vou dar a mesma resposta. Não é nenhuma contradição. O que quis e quero dizer é que o que se sente em Auschwitz é assombroso. Foi-o para mim principalmente por causa do bloco 11, chamado de Bloco da Morte.

Deixemo-nos de mais suspense. O bloco 11 de Auschwitz é a câmara dos horrores de todo o campo de concentração. E perguntam vocês: Como assim? Então e as câmaras de gás e os crematórios? Pois, as câmaras de gás eram naturalmente  um lugar de morte massiva e logo nada idílico. No entanto, o bloco 11 e o seu pátio apuraram engenhosamente as torturas física e psicológica.

Bloco 11

Os cerca de 20 metros de parede do corredor do rés-do-chão estão cobertos com fotografias de prisioneiros de Auschwitz. As diferenças entre as centenas de rostos pendurados na parede são praticamente… nenhumas. Todos vestem o famoso fato às riscas, todos estão com uma expressão inexpressiva, de quem não sabe bem o que está ali a fazer, todos estão com o cansaço estampado na cara e todos, imagino, só pensam em como sair dali. Um cabelo mais comprido, uns olhos maiores ou uma boca mais delineada são as poucas diferenças quase invisíveis. Porque tudo o que vemos é confusão naqueles rostos.

As salas que ladeiam o corredor têm feno no chão e as casas de banho são escuras, num escuro de sujidade e de uso que o tempo lhe deu.

Bloco 11

As escadas fazem-nos descer a uma cave onde, com um pouco de imaginação, se conseguem ouvir palavras de agonia. Lá em baixo encontramos a Dark Cell, a Starving Cell e as Standing Cells.

Dark Cell – Os prisioneiros eram colocados numa cela que era um cofre-forte à prova de vida. Aqui morria-se de falta de ar. Demorasse o tempo que demorasse.

Starving Cell – Uma sala com 10 metros quadrados onde se acumulavam 40 corpos até que, um por um, aos poucos, fosse morrendo de fome.

Standing Cells – 4 celas de 1 metro quadrado cada, onde 5 prisioneiros, depois de um longo dia de trabalho, rastejavam para dentro e onde só tinham espaço para estar de pé. Toda a noite.

E foi nas Standing Cells que eu pensei: Já chega! Imaginar que naquele ínfimo metro quadrado se apertavam 5 pessoas envergonhadas, sujas, esfomeadas e que acabavam a tortura da escravidão do dia de trabalho a tentar sobreviver mais um dia, na esperança que no seguinte tudo fosse diferente, foi o fim da minha tentativa de perceber o que ali se tinha passado.  Acho que naquele momento deixei de me interrogar sobre Auschwitz. Saí dali de cabeça baixa, com os olhos a pedirem para ser tapados para que se pudessem expressar.

Uma mão de afago tocou-me no ombro. Lukas Lupinsky apareceu uns dois minutos depois no pátio das execuções, ao lado do bloco 11, onde eu já me encontrava. Trocámos duas frases e depois continuou a olhar para mim como quem diz: Tenho de continuar a visita. Eu sorri timidamente como quem diz: Eu sei. Continua. E ele continuou.

À nossa frente estava uma parede cravejada de balas e ao nosso lado dois postes encimados com ganchos. Todas as semanas eram ali mortas e desmembradas pessoas, quase aleatoriamente. Era preciso arranjar espaço para as “remessas” que todos os dias chegavam ao campo.

IMG_2518

O Bloco 11, contando com o pátio das execuções, é composto maioritariamente por paredes. Não há lá cabelo, não há lá nenhuma mala, nem nada que tínhamos visto antes no Bloco 5. Mas, na minha opinião, há uma sombra muito maior. Talvez porque me “dei” mais a este espaço e porque vinha a acumular toda a informação do que se tinha passado nos outros espaços anteriores.

Auschwitz I estava quase todo visto. O fim da visita acaba no crematório, que foi reconstruído pelo Museu. A pausa de 10 minutos serviu para que um chá aquecesse momentaneamente o corpo e de seguida um autocarro levou-nos a Birkenau, para mais uma hora e pouco de desumanização.

(To be continued…)

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This entry was posted on 15 de Janeiro de 2013 by in Lugares, Pessoas.

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