um novo estado…

…de espírito todos os dias (ou só de vez em quando para não cansar)

Guião para um acto bacante

Maria tinha um problema. O que não era mau, porque normalmente tinha mil problemas ao mesmo tempo. No entanto, desta vez resolveu dedicar-se só a este.

A hora do carteiro era um Big Ben perfeito. Ou sem incomodar colocava as cartas na ranhura da porta, ou a tocar à campaínha requeria o rabisco tradicional de Maria para as encomendas maiores. Foi o que aconteceu nesse dia.

Obrigada. Tenha um bom dia! Regressou à cozinha e à sua caneca de café. Um gole e um olhar para o remetente do enveleope A4 que tinha recebido. Dionísio. Dionísio? Quem é o Dionísio? Questionou-se em silêncio, semi-cerrando os olhos na curiosidade do nome. Abria? Não abria? Tinha de o abrir. Já tinha dito ao futuro que o faria. Rasgou o papel como se de uma prenda se tratasse e retirou de lá de dentro um pequeno caderno. Na capa um título, nas primeiras páginas o nome do argumentista: Dionísio. Outra vez? Depois o nome de uma personagem: Maria. Eu? Virou a folha e encontrou o resumo da estória. O estômago de Maria apertou-se. Muito! Fechou o caderno de encontro ao peito. Estaria a sonhar?

Maria era actriz. Toda a gente sabia que ela sempre sonhara desempenhar grandes papéis e já tinha tido oportunidade de encarnar muitas personagens. Mas quando deu de caras com este novo desafio… ficou desorientada. Estaria ela preparada? Ou melhor, seria ela capaz de agarrar tal destino? Ela queria. Muito. Mas sabia que não seria fácil. E afinal quem seria o tal Dionísio que lhe enviara tal oportunidade? Fosse quem fosse, ela só teria que lhe agradecer.

Subiu ao quarto, recostou-se na cama, iniciou a leitura do argumento e o processo criativo.

Empty Stage

1º – Ler o guião.
2º – Conhecer as outras personagens.
3º – Acreditar na estória.
4º – Estudar a fundo a sua personagem.
5º – Ensaiar.
6º – Representar.

1º – Ler o guião.

Abriu o documento mais uma vez. Leu, leu, leu… e Mas… mas então? Alguma coisa estava errada. O final da estória estava bem delineado no seu resumo, nas primeiras páginas. Mas aqui… o guião estava incompleto! Maria ficou perplexa. Ora, sem final descritivamente definido, Maria apenas podia fazer uma coisa, dar largas à imaginação e desenvolver ela própria as acções para o final.

2º – Conhecer as outras personagens.

Neste campo tudo melhorara. As personagens eram poucas, aliás, era só uma e bem familiar. Uma personagem física, muitas personagens interiores. E inconstantes.

3º – Acreditar na estória.

O guião estava bem escrito, logo seria fácil acreditar na estória. Contudo acreditar não queria dizer que ela fosse verídica. Apenas verosímil. E esta parecia ser uma palavra-chave para Maria.

4º – Estudar a fundo a sua personagem.

Maria, ou melhor a sua personagem era a de… morta. Mas Maria tinha uma nota importante para o seu desempenho. Teria de depositar no seu corpo morto de personagem diária todo o misto de espíritos que se viviam num ateneu grego. Raios partam o argumentista, resmungou enquanto fechava o guião e perspectivava a personagem.

Aqui surgia o primeiro grande entrave. O trabalho de laboratório iria ser complicado. Maria não conhecia mortos e nunca tinha estado morta. Não sabia como eles actuavam no seu dia-a-dia, não sabia como era a vida deles, como interagiam com os vivos e com os outros mortos, como passavam os tempos livres, se por norma eram pessoas de fácil convívio, se tinham muito frio, se a morte lhes alterara a forma como se comportavam até então, o que pensavam do seu estado, enfim… uma série de questões que por mais pesquisa que fizesse não via como seriam respondidas. E a mais pertinente das perguntas era: valeria a pena investir o seu tempo naquela personagem?

5º – Ensaiar.

Ensaiar neste caso seria um tremendo sacrifício. As dores de costas seriam insuportáveis e o tempo iria custar a passar. E mesmo assim tinha a sensação de que nunca estaria suficientemente morta.

6º – Representar.

O derradeiro passo. O mais difícil dos passos. Teria de dar vida à personagem, o que não deixava de ser irónico, uma vez que iria fazer de morta. Se fosse no cinema havia sempre a possibilidade de repetir o take, no teatro nem por isso, mas teria o dia seguinte para melhorar a sua performance. Neste caso seria tudo muito mais complicado. Um passo em falso e lá se iria toda a credibilidade. Ainda para mais este era um papel que se consolidaria com o tempo, que se enraizaria a cada dia que passasse, embora não percebesse muito bem como poderia fazer de mais morta do que morta.

Manter a sua personagem viva indeterminadamente poderia ser esgotante, poderia ser mesmo mortal, se bem que  nesse caso a sua representação seria digna de um Óscar, post-mortem.

Tudo aquilo estava-a a deixar angustiada. O futuro estava suspenso pelas suas vontades e pelo oposto delas. A mise-en scene era a sua vida e Maria não queria deixar o palco. Maria queria as palmas. Pegou numa esferográfica.

Nesse momento um homem rodou uma chave na fechadura da porta da entrada. Parecia conhecer os cantos à casa e directamente dirigiu-se à cozinha. Uma caneca de café em cima do balcão. Voltou ao corredor, subiu as escadas e dirigiu-se ao quarto de Maria.

O pequeno caderno, aberto na página do resumo, e a esferográfica encontravam-se no chão ao lado da cama . Todas as frases estavam riscadas. Menos a última. Maria morre. O homem pegou no caderno, virou a página, riscou o nome Dionísio e escreveu Maria. Sorriu e colocou o guião em cima do corpo imóvel que o olhava de olhos felizes. Nesse momento o telemóvel do homem tocou. Atendeu e disse: Ganhei Apolo. Maria matou-se!

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This entry was posted on 19 de Abril de 2013 by in Contos.

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