um novo estado…

…de espírito todos os dias (ou só de vez em quando para não cansar)

Isto não é um conto

Ele queria ter super poderes. Não no sentido de super-herói (se bem que, por vezes, também não se importaria).

Sempre quis ser omnipresente. Não no sentido espiritual do Deus que tudo vê de lá de cima, mas que na realidade nada pode fazer em lado algum. Queria estar mesmo corporeamente omnipresente.

Queria saber o que se passa na cabeça de todos aqueles que com ele falavam. Não no sentido de invadir privacidade. Embora, inevitavelmente, isso fosse acontecer.

Sempre quis saber tudo. Tudo! Saber epistimologicamente. Ser o génio dos génios! (Também gostava de ser o génio da Lâmpada, com milhões de lâmpadas para acariciar sempre que quisesse.)

Contudo, o seu mais recente desejo era poder sofrer de empatia pura. O que vendo bem, é um misto de todos os seus desejos anteriores. E disse-lho. A ela que, acorrentada dentro de si,  estava de frente para a parede a olhar um poster de Magritte.

magritte16

Ela – Vou dizer um disparate, ok?

Ele –  Vou fumar o último cigarro.

Ela – Até vais enjoar o quanto gosto de ti… Hoje gostava de OLHAR para ti. Gosto dos teus ombros.

Ele – Estás a ver porque é que tenho de estar em frente a ti? Para te perguntar e ver a tua cara a explicar como é que isso é possível.

Ela – Eu vivo sem estômago, tal o nó e a vontade de te pedir desculpa de joelhos e rogar que me abraces.

Ele – Não havia necessidade de termos saudades de ver um ao outro. Detesto isso!

Ela – Porquê?

Ele – Eu vivo num limbo quando estou contigo. Já me estou a repetir.

Ela –  Sabes que te digo? Foda-se. Gosto de ti, caralho!

Ele – Às vezes não sei que te diga.

Ela – Odeias o facto de não me odiares…?

Ela queria ser tudo. Mas só isso. Tudo. Não queria ser outra, ou amanhã. Queria ser tudo. Da forma mais simples e certa que o tudo acarreta. Assim seria mais fácil ser amada. Seria mais fácil acordar todas as manhãs para se ser tudo, porque toda a gente a desculparia. Até ela própria.

No meio disto tudo havia um problema. Ela não suportava que a vissem a ser o tudo que ela não era. E isso fazia com que ela quisesse esconder o nada que o sonho do tudo lhe trazia.

Ele odiava olhar Magritte! Mas não o Magritte!

 

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This entry was posted on 25 de Junho de 2014 by in Contos.

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